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sábado, 6 de junho de 2015

Dennett X Sonhos Precognitivos

Daniel Dennett ¹, um conhecido filósofo da mente, já citado no texto anterior, apresentou uma interessante alternativa a forma como é aceita a concepção dos sonhos. Dentro dessa teoria, ocorre uma explicação razoável para eventos coincidentes nos sonhos com acontecimentos na vida desperta. Coincidências essas normalmente chamadas de sonhos precognitivos...

Com a Teoria da Biblioteca dos Cassetes, proposta por Daniel Dennett, nossos sonhos não seriam experimentados e a própria memória está comprometida. Assim, não estaríamos vivenciando aqueles relatos, mas na melhor das hipóteses, conseguindo trazer da memória alguns eventos ali gravados e reproduzidos no despertar. Desse modo, os sonhos não seriam tecnicamente experimentados, mas apenas recordados, extraídos de nossa biblioteca mental... como em cassetes.

Em seu texto, Dennett (1978) afirma que, de acordo com a concepção da teoria dos cassetes, nossos sonhos “pré-cognitivos” nunca são sonhados de forma alguma, mas apenas supostamente “lembrados” ao acordarmos. Sendo assim, os mecanismos de memória estariam vazios até o momento de acordar e não se trataria de episódios experimentados.  Não existindo assim, a experiência do sonhar.

Como certos sonhos parecem tão diretamente influenciados pela narrativa, com seus desfechos, incidindo coincidência com eventos do ambiente ao despertar, cria-se a questão de como os sonhos poderiam antecipar acontecimentos do estado desperto. Essa questão, proposta por Dennett (1978), cita um exemplo: 

"num experimento em laboratório, no qual formas diferentes estavam sendo utilizadas, para efetuar o despertar de pessoas que sonhavam e nesse caso, uma delas foi estimulada a acordar, com pingos de água fria nas costas. Seu relato, informou que estava cantando numa ópera, quando de repente percebeu a soprano ser atingida por pedaços do teto; o sonhador foi em direção a soprano e ao se debruçar para protege-la, sentiu em suas costas o gotejar da água fria."




Teixeira (2008) ² chama atenção para alguns pontos positivos e outros negativos da teoria proposta por Dennett. Nesse sentido, favoravelmente, com a relação estreita entre o despertar e a capacidade de recordação, encaixando-se como fenômeno alucinatório instantâneo ao acordar, a teoria dos cassetes cobriria assim, como uma alternativa a ideia de existência de sonhos pré-cognitivos. 
Certos fenômenos de antecipação de eventos ou precognição ao despertar poderiam ser explicados. De acordo com Teixeira, um telefone que é avistado no sonho e começa a tocar, em coincidência com o sonho?...  Para o filósofo brasileiro, através da teoria dos cassetes: "A resposta de Dennett é que este tipo de sonho ocorre precisamente ao despertar e se explica pelo despertar. Afora esta solução, a única alternativa seria introduzir o conceito de precognição em nossa teoria do conhecimento, o que, neste caso, equivaleria a trocar o obscuro pelo mais obscuro, pois este é um fenômeno sobre o qual praticamente nada sabemos".

Bibliografia:

(1)DENNET, Daniel C. Brainstorms: Ensaios Filosóficos Sobre Mente e Psicologia. São Paulo: UNESP, 1978.

(2)TEIXEIRA, F. J. A mente segundo Dennett. Perspectiva São Paulo: Perspectiva, 2008.
 
Postado por Márlon Jatahy 2

domingo, 3 de maio de 2015

Sonhos são experiências? Sonhar que está sonhando...


  Daniel Dennett, um dos mais conhecidos filósofos da mente da atualidade, apresentou em 1978 um instigante questionamento em seu texto: “Os Sonhos são experiências?”¹. Seu tema, com referências ao livro Dreaming de Norman Malcolm(1959), reacendeu a chama da questão dos sonhos e sua relação com a consciência. Afinal, teriam os sonhos a validade de experiências? Acerca da natureza dos sonhos lúcidos: a possibilidade de ser um tipo de sonho no qual a pessoa "sonha que está sonhando".

Imagem baseada no filme animado japonês Páprika(2006). Na história, desenvolveu-se um aparelho que permite os psicólogos, entrarem nos sonhos de seus pacientes para prestar maior auxílio. Mas afinal, Dennet estaria certo e máquinas assim não fariam o menor sentido?!...


   O texto elabora uma alternativa, denominada por Dennett de Teoria da Biblioteca dos Cassetes, contra o ponto de vista do senso comum ou como é chamada na obra, a “Concepção Aceita”, na qual, os sonhos deveriam ser considerados como experiência. Um de seus argumentos, ergue-se no sentido de que a própria memória está comprometida e não estaríamos vivenciando aqueles relatos, mas na melhor das hipóteses, conseguindo trazer da memória alguns eventos ali gravados e reproduzidos no despertar. Desse modo, os sonhos não seriam tecnicamente experimentados, mas apenas recordados, extraídos de nossa biblioteca mental.
  
   Dennett contra-argumenta também, frente ao texto de Kathleen Emmett² de que o sonho lúcido seria o fenômeno que comprovaria a validade dos sonhos como experiência. Para Dennett, o sonho lúcido estaria enquadrado nesse processo de produção de memória inconsciente. Dessa maneira, vez por outra esse processo gravaria traços de si mesmo no registro: "por meio da fantasia literária de um sonho dentro de um sonho". Não seria novidade alguma, afinal o filósofo afirma, pelo menos a partir das Meditações em Descartes, o poder dos sonhos(que é um dos argumentos cartesianos), leva-nos a compreender como é possível ser contada qualquer história nesse mundo. Qualquer história!...


Livro do filósofo Daniel Dennet, no qual apresenta uma teoria que contraria a idéia do senso comum sobre sonhos.


   Outro interessante argumento proposto por Dennett contra a Concepção Aceita, segue no sentido de uma explicação mais razoável com relação a "sonhos precognitivos" ou sonhos premonitórios. Resumidamente, o filósofo apresenta uma série de casos onde existiriam implicações de que a narrativa  dos sonhos estaria sendo acionada retrospectivamente, ou seja logo após o despertar. O conteúdo onírico levaria até o ponto final, com flagrante semelhança ao estímulo de vigília para resultar em mera coincidência. A Concepção Aceita não ofereceria alternativa senão a existência de sonhos precognitivos.

   No próximo post, vou apresentar mais detalhadamente o argumento, no qual Dennett oferece uma explicação mais simples para os "sonhos precognitivos".


Referências Bibliográficas:



(1)DENNET, Daniel C. Brainstorms: Ensaios Filosóficos Sobre Mente e Psicologia. São Paulo: UNESP, 1978.

(2)EMMETT, Kathleen.: Oneiric Experiences. Philosophical Studies 34. Dordrecht: D. Reidel Publishing Company, 1978.
Postado por Márlon Jatahy 10

quarta-feira, 25 de março de 2015

O Incrível Hiper-Realismo dos Falsos Despertar


    É possível identificar momentos especiais dos nossos sonhos, em que nos deparamos com um nível de realismo esmagador. O evento conhecido como "falso despertar", pode resultar em sonhos com elementos surreais(como qualquer outro sonho), mas também é capaz de apresentar uma surpreendente verossimilhança com o real.

    Bem conhecido da maioria das pessoas que se interessam por sonhos, o falso despertar parece mais comum nas últimas horas de sono. Normalmente envolve uma simulação, por meio de sonhos, daquela sucessão de momentos no qual despertamos e passamos a fazer coisas comuns da nossa rotina: ir para o banheiro, cozinha, para o estudo ou trabalho...

    De acordo com Thomas Metzinger*, filósofo e pesquisador da área dos sonhos, esse realismo verificado nos falsos despertar, pode ocorrer em função de uma antecipação natural de eventos que vivenciamos ao despertar.




    Um relato fascinante encontrei, a partir de um experimento de laboratório de sono, do psicólogo francês Yves Delage:

   "Isso aconteceu quando eu estava no Laboratório Roscoff. Uma noite eu fui acordado por batidas fortes na porta do quarto. Levantei e perguntei: 
- Quem está aí?
- Senhor - veio a voz de Marty, monitor do laboratório - é a Madame H***(alguém que de fato estava morando na cidade naquele tempo e era minha conhecida), quem está pedindo para o senhor vir imediatamente para sua casa, para ver a senhorita P****(que de fato residia com com ela) que ficou doente.
- Já vou me vestir e irei. Vesti-me rapidamente, mas antes de sair eu fui ao banheiro, passar uma esponja úmida no rosto. 
    A sensação de água gelada me fez despertar na cama do laboratório e perceber que havia sonhado com todos aqueles eventos anteriores e que ninguém havia me chamado. Votei a dormir e pouco depois, a mesma batida forte na porta acompanhada da voz de Marty:

- Senhor, não irá atender o chamado?
- Meu Deus! Então era verdade?! Achei que tinha sonhado com isso tudo.
- Não mesmo. Venha rápido. Eles estão esperando.
- Tudo bem, eu estou indo - novamente eu me vesti, fui para o banheiro e ao passar a esponja com água gelada no rosto, acordei mais uma vez e entendi que eu estava sendo enganado por esses falsos despertar. 

  Voltei a dormir e tudo se repetiu mais duas vezes. Pela manhã, quando eu realmente despertei, pude notar a jarra de água cheia, a tigela vazia e a esponja seca. Compreendi que tudo fora mesmo um sonho; não apenas as batidas na porta e as conversas com o Marty, mas todas vezes que me vesti, que fui ao banheiro e que lavei meu rosto, eu tive a crença de ter acordado depois de ter sonhado e voltado para cama. Toda série de ações, raciocínios, pensamentos e sensações foram nada mais que um sonho repetido quatro vezes em sucessão, sem interrupção no meu sono e sem que tivesse deixado a cama.





    Particularmente tive uma experiência interessante nesse sentido. Uma madrugada tive meu sono interrompido, com o alarme de uma residência vizinha disparando. Era um imóvel desocupado e o alarme disparava noite adentro com interrupções esporádicas.
    Levantei-me algumas vezes, cada vez mais irritado com a situação. Já havia ligado para a polícia e nada de cessar o barulho infernal. Até que numa dessas disparadas, levantei louco da vida, fui até a janela e percebi uma presença no quarto... era uma mulher morena, linda e... finalmente me lembrei de que não deveria existir mulher alguma no meu quarto(solteiro na época).

    Nesse sonho acima relatado, fiquei lúcido(e segui com ele).

    Metzinger defende que esses falsos despertar podem conter um realismo profundo. Por experiência própria compartilho dessa perspectiva.

Referência Bibliográfica:

METZINGER, Thomas; WINDT, Jenifer Michelle. The Philosophy of Dreaming and Self-Consciousness: What Happens to the Experiential Subject during the Dream State?
 
Postado por Márlon Jatahy 18

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Podcast sobre Sonhos Lúcidos no Meia Lua

O site Meia Lua produziu um podcast especial sobre sonhos lúcidos. Vale a pena conferir: http://gamehall.uol.com.br/meialua/meialuacast-049-sonhos-lucidos/






Postado por Márlon Jatahy 15

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Capacidade de Auto-Reflexão e os Sonhos Lúcidos

    Neurocientistas do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano de Berlin e Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique, descobriram que a área responsável pela auto-reflexão é morfologicamente maior em pessoas com a habilidade de ficar consciente nos sonhos. 


Imagem de cena do filme Waking Life.

     Isso poderia implicar na possibilidade de que sonhadores lúcidos - em se comparando com pessoas que nunca tiveram ou raramente conseguem ter sonhos lúcidos - teriam maior capacidade de auto-reflexão ou metacognição.

   Por metacognição, pode-se entender uma habilidade de perceber os próprios estados mentais e reflexão acerca dos próprios pensamentos. Nas palavras das psicólogas Cláudia Dantas e Camila Cruz Rodrigues:

"O conceito de metacognição está relacionado à consciência e ao automonitoramento do ato de aprender. É a aprendizagem sobre o processo da aprendizagem ou a apropriação e comando dos recursos internos se relacionando com os objetos externos. A metacognição é a capacidade do ser humano de monitorar e autorregular os processos cognitivos."

   A teoria é baseada em imagens de experimentos, em pessoas testadas enquanto resolviam exercícios metacognitivos, no estado desperto. Essas imagens mostraram que a atividade do córtex pré-frontal era mais intensa em sonhadores lúcidos. "Nossos resultados indicam que a auto-reflexão no dia-a-dia é mais pronunciada em pessoas que podem facilmente controlar seus sonhos", declara Elisa Filevich, pesquisadora do Centro de Psicologia de Lifespan do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano.

Imagem do excelente filme Waking Life



      Os pesquisadores procuram descobrir se as habilidades metacognitivas podem ser treinadas. Em um estudo seguinte, deve-se direcionar as pesquisas para o treino de voluntários na indução de sonhos lúcidos e examinar os resultados, verificando alguma possível relação com a melhora na capacidade de auto-reflexão.


Referência Bibliográfica:

Kühn S, Brick TR, Dresler M, Filevich E. Metacognitive mechanisms underlying lucid dreaming. The Journal of Neuroscience. 2015.

Cláudia Dantas; Camila Cruz Rodrigues. Estratégias metacognitivas como intervenção psicopedagógica para o desenvolvimento do automonitoramento. Revista Psicopedagogia. vol.30 no.93 São Paulo  2013.
Postado por Márlon Jatahy 8

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sonhos e o Tempo: o Melhor Simulador do Mundo está no seu Cérebro

     Apesar do que aponta o senso comum, a percepção do tempo enquanto sonhamos parece ser o contrário do que muitos pensam: no sonho, sentimos o tempo de maneira mais lenta do que no estado desperto.

Pilotos costumam refazer mentalmente a trajetória da pista... em um sonho lúcido, pode-se percorrer a pista em um simulador que emula a realidade.
      

     Daniel Erlacher e outros pesquisadores, pela Universidade de Bern, verificaram uma interessante diferença de tempo, entre a execução de certas atividades no estado desperto e durante um sonho lúcido. Não foram as primeiras pesquisas realizadas na área. O próprio pesquisador já havia conseguido resultados intrigantes em 2004, juntamente com Michael Schredl. Essa pesquisa foi divulgada nesse site e pode ser conferida aqui.

     Há dez anos, Erlacher e Schredl identificaram que os sonhadores lúcidos, no momento em que estavam sonhando(e conscientes), eram capazes de executar contagens(de 1 até 10) em um período muito próximo da vigília. Porém uma diferença superior a 44,5%% acontecia quando esses mesmos sonhadores lúcidos realizavam exercícios de agachamento. Em suma: em se comparando com o estado desperto, nos sonhos, surgia uma lentidão ou percepção mais lenta do tempo.

     Nesse novo estudo, outras atividades foram cumpridas: caminhada, exercícios de ginástica e contagem de 01 até 30. Através do novo estudo, verificaram que os voluntários, executavam certas atividades(caminhada e ginástica),com uma lentidão até 50% maior do que na vigília(acordados). Imagine-se treinando nos sonhos algum tipo de esporte, como por exemplo a corrida. Quando estiver sonhando, a percepção da execução da atividade irá acontecer com essa lentidão. 


Imagem do ótimo filme Cidade das Sombras


        Interessante notar que a diferença de percepção caiu quando os sonhadores lúcidos executavam contagens de 01 até 30. Foram três experimentos nesse sentido: contaram de 01 até 10, 01 até 20 e 01 até 30. A lentidão foi em média 27,2% maior do que no estado desperto.
 
         A possibilidade de utilizar o cérebro, no estado mental dos sonhos lúcidos, como um grande e eficiente simulador está ficando cada vez mais em evidência. Mesmo que nossa mente não seja capaz de emular em detalhes certas condições do ambiente, ainda assim, oferece a oportunidade de aprimorarmos nossas habilidades, desempenhando performances em câmera-lenta.


        De acordo com Erlacher: "É claro que há limites - você não pode melhorar a resistência , mas se você tiver bom simulador no cérebro, pode usá-lo para melhorar e estabilizar as técnicas. Eu vejo isso como um grande potencial para as disciplinas com um alto nível técnico".


Fontes:

http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fpsyg.2013.01013/full

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3893623/
Postado por Márlon Jatahy 14
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