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quarta-feira, 25 de março de 2015

O Incrível Hiper-Realismo dos Falsos Despertar


    É possível identificar momentos especiais dos nossos sonhos, em que nos deparamos com um nível de realismo esmagador. O evento conhecido como "falso despertar", pode resultar em sonhos com elementos surreais(como qualquer outro sonho), mas também é capaz de apresentar uma surpreendente verossimilhança com o real.

    Bem conhecido da maioria das pessoas que se interessam por sonhos, o falso despertar parece mais comum nas últimas horas de sono. Normalmente envolve uma simulação, por meio de sonhos, daquela sucessão de momentos no qual despertamos e passamos a fazer coisas comuns da nossa rotina: ir para o banheiro, cozinha, para o estudo ou trabalho...

    De acordo com Thomas Metzinger*, filósofo e pesquisador da área dos sonhos, esse realismo verificado nos falsos despertar, pode ocorrer em função de uma antecipação natural de eventos que vivenciamos ao despertar.




    Um relato fascinante encontrei, a partir de um experimento de laboratório de sono, do psicólogo francês Yves Delage:

   "Isso aconteceu quando eu estava no Laboratório Roscoff. Uma noite eu fui acordado por batidas fortes na porta do quarto. Levantei e perguntei: 
- Quem está aí?
- Senhor - veio a voz de Marty, monitor do laboratório - é a Madame H***(alguém que de fato estava morando na cidade naquele tempo e era minha conhecida), quem está pedindo para o senhor vir imediatamente para sua casa, para ver a senhorita P****(que de fato residia com com ela) que ficou doente.
- Já vou me vestir e irei. Vesti-me rapidamente, mas antes de sair eu fui ao banheiro, passar uma esponja úmida no rosto. 
    A sensação de água gelada me fez despertar na cama do laboratório e perceber que havia sonhado com todos aqueles eventos anteriores e que ninguém havia me chamado. Votei a dormir e pouco depois, a mesma batida forte na porta acompanhada da voz de Marty:

- Senhor, não irá atender o chamado?
- Meu Deus! Então era verdade?! Achei que tinha sonhado com isso tudo.
- Não mesmo. Venha rápido. Eles estão esperando.
- Tudo bem, eu estou indo - novamente eu me vesti, fui para o banheiro e ao passar a esponja com água gelada no rosto, acordei mais uma vez e entendi que eu estava sendo enganado por esses falsos despertar. 

  Voltei a dormir e tudo se repetiu mais duas vezes. Pela manhã, quando eu realmente despertei, pude notar a jarra de água cheia, a tigela vazia e a esponja seca. Compreendi que tudo fora mesmo um sonho; não apenas as batidas na porta e as conversas com o Marty, mas todas vezes que me vesti, que fui ao banheiro e que lavei meu rosto, eu tive a crença de ter acordado depois de ter sonhado e voltado para cama. Toda série de ações, raciocínios, pensamentos e sensações foram nada mais que um sonho repetido quatro vezes em sucessão, sem interrupção no meu sono e sem que tivesse deixado a cama.





    Particularmente tive uma experiência interessante nesse sentido. Uma madrugada tive meu sono interrompido, com o alarme de uma residência vizinha disparando. Era um imóvel desocupado e o alarme disparava noite adentro com interrupções esporádicas.
    Levantei-me algumas vezes, cada vez mais irritado com a situação. Já havia ligado para a polícia e nada de cessar o barulho infernal. Até que numa dessas disparadas, levantei louco da vida, fui até a janela e percebi uma presença no quarto... era uma mulher morena, linda e... finalmente me lembrei de que não deveria existir mulher alguma no meu quarto(solteiro na época).

    Nesse sonho acima relatado, fiquei lúcido(e segui com ele).

    Metzinger defende que esses falsos despertar podem conter um realismo profundo. Por experiência própria compartilho dessa perspectiva.

Referência Bibliográfica:

METZINGER, Thomas; WINDT, Jenifer Michelle. The Philosophy of Dreaming and Self-Consciousness: What Happens to the Experiential Subject during the Dream State?
 
Postado por Márlon Jatahy 0

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Podcast sobre Sonhos Lúcidos no Meia Lua

O site Meia Lua produziu um podcast especial sobre sonhos lúcidos. Vale a pena conferir: http://gamehall.uol.com.br/meialua/meialuacast-049-sonhos-lucidos/






Postado por Márlon Jatahy 10

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Capacidade de Auto-Reflexão e os Sonhos Lúcidos

    Neurocientistas do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano de Berlin e Instituto Max Planck de Psiquiatria em Munique, descobriram que a área responsável pela auto-reflexão é morfologicamente maior em pessoas com a habilidade de ficar consciente nos sonhos. 


Imagem de cena do filme Waking Life.

     Isso poderia implicar na possibilidade de que sonhadores lúcidos - em se comparando com pessoas que nunca tiveram ou raramente conseguem ter sonhos lúcidos - teriam maior capacidade de auto-reflexão ou metacognição.

   Por metacognição, pode-se entender uma habilidade de perceber os próprios estados mentais e reflexão acerca dos próprios pensamentos. Nas palavras das psicólogas Cláudia Dantas e Camila Cruz Rodrigues:

"O conceito de metacognição está relacionado à consciência e ao automonitoramento do ato de aprender. É a aprendizagem sobre o processo da aprendizagem ou a apropriação e comando dos recursos internos se relacionando com os objetos externos. A metacognição é a capacidade do ser humano de monitorar e autorregular os processos cognitivos."

   A teoria é baseada em imagens de experimentos, em pessoas testadas enquanto resolviam exercícios metacognitivos, no estado desperto. Essas imagens mostraram que a atividade do córtex pré-frontal era mais intensa em sonhadores lúcidos. "Nossos resultados indicam que a auto-reflexão no dia-a-dia é mais pronunciada em pessoas que podem facilmente controlar seus sonhos", declara Elisa Filevich, pesquisadora do Centro de Psicologia de Lifespan do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano.

Imagem do excelente filme Waking Life



      Os pesquisadores procuram descobrir se as habilidades metacognitivas podem ser treinadas. Em um estudo seguinte, deve-se direcionar as pesquisas para o treino de voluntários na indução de sonhos lúcidos e examinar os resultados, verificando alguma possível relação com a melhora na capacidade de auto-reflexão.


Referência Bibliográfica:

Kühn S, Brick TR, Dresler M, Filevich E. Metacognitive mechanisms underlying lucid dreaming. The Journal of Neuroscience. 2015.

Cláudia Dantas; Camila Cruz Rodrigues. Estratégias metacognitivas como intervenção psicopedagógica para o desenvolvimento do automonitoramento. Revista Psicopedagogia. vol.30 no.93 São Paulo  2013.
Postado por Márlon Jatahy 7

domingo, 4 de janeiro de 2015

Sonhos e o Tempo: o Melhor Simulador do Mundo está no seu Cérebro

     Apesar do que aponta o senso comum, a percepção do tempo enquanto sonhamos parece ser o contrário do que muitos pensam: no sonho, sentimos o tempo de maneira mais lenta do que no estado desperto.

Pilotos costumam refazer mentalmente a trajetória da pista... em um sonho lúcido, pode-se percorrer a pista em um simulador que emula a realidade.
      

     Daniel Erlacher e outros pesquisadores, pela Universidade de Bern, verificaram uma interessante diferença de tempo, entre a execução de certas atividades no estado desperto e durante um sonho lúcido. Não foram as primeiras pesquisas realizadas na área. O próprio pesquisador já havia conseguido resultados intrigantes em 2004, juntamente com Michael Schredl. Essa pesquisa foi divulgada nesse site e pode ser conferida aqui.

     Há dez anos, Erlacher e Schredl identificaram que os sonhadores lúcidos, no momento em que estavam sonhando(e conscientes), eram capazes de executar contagens(de 1 até 10) em um período muito próximo da vigília. Porém uma diferença superior a 44,5%% acontecia quando esses mesmos sonhadores lúcidos realizavam exercícios de agachamento. Em suma: em se comparando com o estado desperto, nos sonhos, surgia uma lentidão ou percepção mais lenta do tempo.

     Nesse novo estudo, outras atividades foram cumpridas: caminhada, exercícios de ginástica e contagem de 01 até 30. Através do novo estudo, verificaram que os voluntários, executavam certas atividades(caminhada e ginástica),com uma lentidão até 50% maior do que na vigília(acordados). Imagine-se treinando nos sonhos algum tipo de esporte, como por exemplo a corrida. Quando estiver sonhando, a percepção da execução da atividade irá acontecer com essa lentidão. 


Imagem do ótimo filme Cidade das Sombras


        Interessante notar que a diferença de percepção caiu quando os sonhadores lúcidos executavam contagens de 01 até 30. Foram três experimentos nesse sentido: contaram de 01 até 10, 01 até 20 e 01 até 30. A lentidão foi em média 27,2% maior do que no estado desperto.
 
         A possibilidade de utilizar o cérebro, no estado mental dos sonhos lúcidos, como um grande e eficiente simulador está ficando cada vez mais em evidência. Mesmo que nossa mente não seja capaz de emular em detalhes certas condições do ambiente, ainda assim, oferece a oportunidade de aprimorarmos nossas habilidades, desempenhando performances em câmera-lenta.


        De acordo com Erlacher: "É claro que há limites - você não pode melhorar a resistência , mas se você tiver bom simulador no cérebro, pode usá-lo para melhorar e estabilizar as técnicas. Eu vejo isso como um grande potencial para as disciplinas com um alto nível técnico".


Fontes:

http://journal.frontiersin.org/Journal/10.3389/fpsyg.2013.01013/full

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3893623/
Postado por Márlon Jatahy 11

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Memória, Limbo e Falso Despertar

    Existe um momento durante o estado mental dos sonhos em que percebemos estar sonhando, porém observamos que o cenário do sonho ainda não se estabilizou. Outra situação é quando lutamos para recordar o que planejamos no estado desperto(vigília) e ficamos em dificuldades para acessar essa memória. Por fim, as armadilhas do falso despertar. O texto abaixo é um relato da sucessão de sonhos lúcidos que tive e talvez possa auxiliar na superação dessas situações.


Imagem inspirada no livro Encontro com Rama, de Arthur Clarke. Imagem de Andre Freitas, e efeitosde  CGI produzidos pela Lightfarm Studios created "The Verge

      Meus últimos sonhos lúcidos aconteceram na semana passada, enquanto tentava realizar um "Desafio Lúcido", uma brincadeira entre os sonhadores lúcidos, na qual o objetivo era visitarmos um cenário de sonho com "O Mundo daqui 1.000 anos".

     Fiquei consciente num lugar extremamente escuro. O sonho ainda não havia se formado. Tentava tatear no chão para manter a consciência e de repente alcançar um lugar mais claro. Tateava pelo chão, corpo, paredes... resolvi fazer umas flexões também. Continuei a passar a mão pelas paredes até sentir o trinco de uma porta. Consegui.
     Abri a porta invisível - sentida pelo tato -  e fui para um lugar um pouco mais claro. Era uma sala grande. Procurei lembrar o que havia planejado fazer. Qual experimento ou plano... e caminhava, atravessando portas, corredores, porém a recordação não vinha. Acabei tendo um falso despertar.

Uso da Técnica das Portas sempre produzem a mais alta eficiência para mim em meus experimentos. Na imagem, capa de um dos excelentes livros de Stephen King, da Saga da Torre Negra.


 É interessante notar como ter um objetivo planejado no estado desperto, nos ajuda a manter firmes com a consciência durante o sonho. Trata-se de um foco, algo que serve de combustível para se embrenhar no sonho, aceitando a estrutura natural de nosso inconsciente, possibilitando se divertir com ele e fazer alguns experimentos, sem qualquer ação ou controle forçado. Mesmo submetido ao falso despertar, consegui voltar com consciência(veja abaixo)!...


     Era escuro novamente. Percebi estar ainda sonhando. Recomecei o processo de tatear o chão, o corpo e as paredes. Fiz assim até encontrar a maçaneta de uma porta. Abri-a desejando que o lugar estivesse claro.

A utilização do sentido do tato nos sonhos, parece ajudar sobremaneira, quando a estrutura do sonho ou o cenário, ainda não se encontram concluídos. Tenho anotado uma considerável quantidade de sonhos lúcidos, nos quais me utilizei dessa ferramenta para adentrar no sonho, mantendo estável a consciência.


      E consegui!... A casa estava mais clara e me esforcei para lembrar o que tinha planejado fazer. Dessa vez eu conseguiria. Tinha lembrado antes rapidamente, mas me escapou a lembrança... então veio forte. Era visitar o futuro daqui a MIL anos. Saí atrás de uma porta. Encontrei uma abertura de porta, sem ela que dava para fora. Desejei visitar o mundo daqui MIL anos e saí para uma floresta. Eram árvores enormes, com troncos bem compridos. Fui saltar por uma delas e dei um salto gigante. A gravidade do lugar era menor. Estaria numa nave, estilo RAMA(o livro de Arthur Clarke, Encontro com Rama)?! Saltei por várias daquelas árvores. Os galhos eram proporcionalmente bem menores e ficavam muito acima, mas os troncos grandalhões. Então despertei.




 

 Sonho lúcido, dois dias depois:

    Estava numa casa, tentando lembrar o que havia planejado fazer no sonho. Caminhava de um lado para o outro, martelando a mente em busca do que tinha planejado. Tudo muito claro e nítido. Esforçava-me para manter o foco e não despertar. E o foco era recordar o "Desafio Lúcido". Finalmente fui inundado com a lembrança de “visitar o mundo daqui 1000 anos”.

     Abri uma porta desejando encontrar aquele futuro e saí para uma grande sacada. Lá avistei prédios monumentais. Eram fortalezas várias vezes maiores do que os prédios de hoje. Alguns coloridos e com janelas gigantes. Via tudo com grande nitidez. Acordei. 











Postado por Márlon Jatahy 20

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Como prolongar o Sonho Lúcido?


   Possivelmente uma das maiores dificuldades de quem acabou de ter seus primeiros sonhos lúcidos, seja a dificuldade de prolongar a experiência.

Imagem do excelente filme Drácula - A história nunca contada



   Conheci o termo "controle indireto", com um amigo com boa experiência em sonhos lúcidos- conhecido como Tyler no antigo Orkut - o qual defendia a utilização dessa técnica. Mais do que uma técnica, trata-se de uma posicionamento ou forma de pensar e agir, durante o evento de um sonho consciente.

   O controle indireto significa procurar se manter no sonho, sem forçar o controle sobre o sonho. Evitar querer controlar diretamente aparecimento de personagens, mudanças de cenário e coisas do gênero. Em vez disso, deve-se aplicar ferramentas de controle indireto. Por exemplo, caso queira encontrar alguém em especial, procurar uma porta e só então desejar que essa pessoa esteja do outro lado. Resumidamente portanto, o sonhador lúcido não deve forçar a narrativa do sonho ou mudar algo diretamente, mas se utilizar de "técnicas de controle", como a Técnica das Portas, uso de baús, espelhos, buracos entre outros que podem ser criados pelo próprio sonhador.




   Não menos importante é a necessidade de possuir um plano ou objetivo em especial para realizar no sonho. Estar com algo preparado para se divertir, um experimento que sinta ser interessante fazer nos sonhos, invariavelmente servirá de combustível para manutenção da consciência nos sonhos.

   Tudo isso é claro, sem esquecer das mais consagradas Técnicas de Controle/Prolongamento, anteriormente bem debatidas e publicadas nesse site:

   -   Rodopio

   -   Esfregar as mãos

   -   Portas
  
  
Postado por Márlon Jatahy 32
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